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Sobrecarga feminina

  • Foto do escritor: Patrícia Olandini
    Patrícia Olandini
  • 8 de mar. de 2024
  • 3 min de leitura

Um significante apareceu com certa insistência essa semana na clínica e me

chamou a atenção. A palavra "sobrecarregada" surgiu em diferentes discursos e por motivos diversos. A frase "Estou sobrecarregada" ou "Me sinto sobrecarregada", independente do seu contexto e cadeia significante, se destaca por ser pronunciada por mulheres, na sua maioria jovens e carregadas (veja aí a palavra significante livre do seu prefixo) mais de sofrimento do que de orgulho.

De que sobrecarga essas mulheres estariam dizendo? Das tarefas incessantes do dia-a-dia, das exigências sociais, ou uma sobrecarga delas mesmas e de suas inumeráveis cobranças diante de um ideal, que é ocupar um lugar de mulher satisfatório? Vejam, a linha entre tudo isso é tênue. Mas de uma forma geral, as queixas não estavam ligadas a algo do real, de emergências que se fazem quando estamos (praticamente sempre) desatentas, e sim de expectativas que não se realizam diante de um lugar idealizado do que é "ser mulher", e ainda poder estar satisfeita com isso.


Freud, quando inicia sua escuta psicanalítica com as histéricas, é impelido a se recolher ao seu silêncio para então conseguir ouvir o que essas mulheres estavam tentando dizer e não conseguiam. O silêncio do psicanalista e o entendimento então da "cura pela fala" se dá pelo imperativo de mulheres que chegam ao seu alto nível de adoecimento, para então assim poderem ser escutadas. E vale lembrar que a denúncia se inicia pelo orgânico: um corpo que se nega a corresponder ao esperado, para poder -então- ser percebido.


A pergunta que se instaura aí, à interpretação de Freud, depois de muito ouvi-las é: "o que é ser uma mulher?". E assim se inicia um tratamento em busca de que, cada uma trace em sua trajetória singular, qual seria a resposta à essa pergunta. Concomitantemente, a estruturação de uma teoria e técnica de escuta vão se consolidando e ganhando espaço (em muitos momentos não quisto) na comunidade europeia. Entretanto, sabemos que essa pergunta se responde singularmente diante da história do próprio sujeito, enquanto resposta possível diante daquilo que lhe é atribuído como carga simbólica deste lugar. Ou seja, como cada mulher (naquela época, no sentido cis do gênero) se entendia, se representava, se portava diante do que lhe era exigido/esperado por ser mulher. A carga está na linguagem, naquilo que se nomeia como ser mulher, que fica representado no laço social, familiar, sexual, etc.


Estamos aqui, neste parágrafo anterior, falando sobre o final do século XIX, mas bem poderia ser sobre o momento presente. Vejam como, ainda diante de muitos avanços na conquista de direitos, de espaços, de representações, as mulheres ainda se sentem diante do imperativo ideal que convoca uma sobrecarga diante da impossibilidade de ocupar tal lugar. O possível não é suficiente, não é bom, muito menos satisfatório. Esse lugar é construído para falhar, para adoecer, para sobrecarregar quem quer que não se questione sobre essa carga simbólica que lhe é atribuída antes mesmo de nascer.


Ser mulher é quase uma ofensa no nosso modelo de organização social, principalmente se você não cumpre um mínimo de expectativa construída na fantasia de que tapamos os buracos e as falhas do mundo, porque claro, eles são todos nossos! Quando o único buraco que deveria nos interessar (e preocupar) é aquele que podemos ter entre as pernas para buscar o prazer de nossa existência.

Goza-se com o sofrimento, porque esse é o lugar atribuído às mulheres. De virgens à mães perfeitas, somos obrigadas a prestar conta a um supereu extremamente rigoroso quando não atendemos às demandas desse grande Outro, que se encontra em cada esquina que cruzamos e que fala por todos os cantos.

Cantemos então outras músicas, não as mortíferas atribuídas às sereias - ou, que seja! Mas que ainda sim, possamos escolher qual é o canto que desejamos sair de nossa boca. De preferência não o canto do medo ou do pedido de socorro diante das violências que são incessantemente postas em nosso caminho.


Pensar o feminino dentro destes discursos incessantes da lida diária, seja no consultório ou fora dele, é um trabalho que não cessa e que nos convoca a pensar quais as cargas que podem ser deixadas para trás e quais realmente nos pertencem (ou escolhemos que pertençam). É provável que as desigualdades de gênero nunca se esgotem, pois sempre estaremos às voltas com nossas destrutividades, mas não se haver com isso é fazer caldo com a violência que nos assombra e sobrecarrega.


Esse texto não foi pensado como referência na data do 8M, mas como o inconsciente insiste, nada mais conveniente do que esse texto para hoje.

 
 
 

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