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A terceira margem e o Inquietante

  • Foto do escritor: Patrícia Olandini
    Patrícia Olandini
  • 18 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Coincidentemente (ou não) ao ler o Conto “A terceira margem do rio” de Guimarães Rosa, estava terminando de ler “O inquietante” de Freud, texto de 1920. O primeiro, aconteceu devido a um encontro em que falaríamos sobre ele, e o segundo fazia parte de um estudo teórico da prática clínica do dia-a-dia.

 

 Foi, para mim, inevitável o diálogo destas duas produções, uma vez que Rosa, toca em mim no inquietante ao discorrer sobre a estória de um pai que passa a ocupar a “terceira margem”. O conto de Rosa, apesar de beirar o absurdo, se faz inquietante pois traz consigo um bom tanto de angústia. Como seria possível um homem  viver no meio de um rio e nunca mais voltar? Passar anos num voto de silêncio e reclusão e sua família ter que dar conta de uma separação tão abrupta e impensada? O pai que escolhe ir e não ir (afinal, fica próximo de onde sua família mora), e nem ao menos fala com ninguém sobre isso...

 Tratamos aqui de um texto que traz várias camadas angustiantes que vamos encontrando através da narrativa de um filho, que, ao ver seu pai partir, escolhe não ser abandonado por ele. Mesmo diante de tal posição paterna, recusa-se a estar nesse lugar (do abandonado) e mantém contato com esse pai ausente-presente no decorrer de muitos anos.

 

 Em “O inquietante” (Das Unheimliche) de 1920, Freud vai discorrer sobre aquilo que foi recalcado, e na mínima possibilidade de se tornar acessível ao consciente, causa  angústia ao sujeito. A palavra “inquietante” no vocabulário alemão comporta a palavra “familiar” (heimlich) e Freud aproxima aquilo o que causa desconforto ao que já nos foi conhecido algum dia. Não sabemos exatamente do que se trata, mas a angústia denuncia a aproximação disso que se tornou inacessível decorrente do interdito da castração, e que de alguma forma o sujeito foi impedido de acessar. Sendo assim, ele fala sobre a “familiaridade” que aquele conteúdo tem com o sujeito, porém, como foi recalcado assume um lugar do “infamiliar”, do estranho, e dificilmente encontra uma boa representação pelo sujeito.

 

Freud fala também sobre a possibilidade de um autor literário tocar no inquietante - de forma absurda ou não - a ponto de nos atravessar e chegar naquilo que nos é infamiliar e portanto, incômodo. Por isso, uma obra de arte, seja literária ou não, provoca sensações tão diversas quando nos encontramos com elas.

 

 O texto de Rosa, para mim, é este inquietante. Ele fala sobre rupturas difíceis de simbolizar; separações indesejadas que beiram o absurdo. Como deixar o barco e a vida fluírem? Como elaborar um pai que se foi mas que ao mesmo tempo não se trocaria de lugar com ele para que ele retornasse?

 A vida da família seguiu, mas este filho ficou. Ficou sem entender a decisão do pai, mas identificado com ele não via outra saída a não ser esta sina. Sina que não poderia ser modificada, assim como Sísifo que todos os dias precisa cumprir a mesma tarefa; na estória de Rosa, quando este filho sugere trocar de lugar com o pai e este hesita por um momento, reconhece que não o quer. Lembra-me também o anti-herói shakesperiano, Hamlet, que fica preso ao fantasma paterno e assim consolida sua tragédia. Apesar deste filho não ir de encontro ao lugar do pai, também não vai a nenhum outro lugar.

 

 No que este conto de Rosa inquieta a tantos? É um dos contos mais conhecidos e falados deste autor. Penso em muitas perguntas....

Por que um pai que resolve partir ainda se faz presente de tantas formas? Sabemos em psicanálise que o pai simbólico está inscrito na estrutura do sujeito, e essa inscrição marca uma posição diante da vida e das relações - e são nessas relações que o inquietante submerge e a angústia toma conta, cobrando do sujeito um grande sofrimento.

 Apesar de desprazerosa e desgostosa por muitos, a psicanálise escuta o inquietante, interessa-se pelo que “ele” tem a contar e sabe que o recalcado insiste em reaparecer, queiramos ou não, porque o inconsciente resiste aos interditos.

 Rosa cutuca um incômodo, faz uma terceira margem ser abundante em significados, provoca as palavras e os afetos, assim como um bom psicanalista. Mas como artista chega antes, provocando o seu leitor, seja lá quem for, sobre as coisas ordinárias da vida.

 

 O que um conto, o inquietante e uma terceira margem tem a nos dizer? Talvez (não tão) só um divã possa ouvir...

 
 
 

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