A contemplação e seus efeitos.
- Patrícia Olandini

- 1 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Depois de um ano e meio, enfim decidi escrever (e publicar) sobre uma experiência um tanto singular e marcante que vivi em março de 2024. Escrevo
até em forma de crônica a fim de organizar os fragmentos dessa passagem tão pitoresca que foi conhecer uma cidadezinha colombiana chamada Pijao.
Com pouco mais de dois mil habitantes, Pijao fica num lugar ermo no meio dos Andes, faz parte da região cafeteira do estado de Quindio e é constituída por uma praça central e poucas quadras de casas ao seu redor.
A caminho desta cidade, um amigo colombiano que nos levava até lá, contou que ela era conhecida por seu "turismo lento": um lugar de contemplação através das trilhas pela região cafeteira e de observação da natureza.
Quando chegamos, uma pessoa responsável pelo setor cultural nos recebeu, e quis nos apresentar o hospital da cidade - fato curioso esse: a filha dele era coordenadora deste hospital e aquele era seu último dia no cargo, e este, a fim de nos apresentar lugares na cidade (e até usar de um certo lugar de poder), nos levou para conhecer o hospital. Ao entrarmos (estávamos num grupo de 5 pessoas) fiquei um tempo tentando entender onde estavam as pessoas daquele lugar. O cenário parecia um local que ocupa a fantasia de um mundo pós apocalíptico: não na destruição, mas na evasão das pessoas. Pela primeira vez (e talvez única) em minha vida eu vi um hospital vazio.
Sim, não haviam pessoas internadas, não havias mulheres parindo e crianças nascendo, não havia cirurgia de emergência... A não ser 3 pessoas que aguardavam na sala do pronto atendimento e que não aparentavam problemas muito graves.
Eu demorei um bom tempo para nomear tudo aquilo. Talvez tenha sido a pessoa mais impactada com aquela cena...
Sabemos que na nossa cultura atual do ocidente o sujeito doente ocupa um lugar de reconhecimento no mundo. Estar (ou ser) doente é uma condição de existência mútua tanto dos sistemas de saúde quanto do gozo do sujeito.
Ser reconhecido pela doença - seja ela qual for, e as nomeações só crescem - tem sido uma premissa do discurso médico-político-econômico que enquadra e limita a singularidade e possibilidades de contornos dos sofrimentos que são inerentes à vida.
Mas ali, em Pijao, o gozo não era esse, era outro. Passeando pela cidade - que não me exigiu muito andar - percebi que o gozo ali era poder se sentar na praça e conversar, bater um papo com amigos no boteco, apreciar a natureza que rodeava aquele pequeno espaço urbano e beber um bom café que era moído e coado na hora. O tempo era outro. Logo, a lógica de não gozar pela doença também.
Um importante detalhe é que aparelhos eletrônicos não eram vistos por ali. Não havia captura pelas telas, a não ser as telas que pintavam um cenário tão belo que capturavam olhares daquilo que compunha uma cidade tão bucólica, lenta e não-adoecida.
Há quem possa me dizer que um hospital vazio numa cidade tão pequena é uma questão de cálculo de probabilidade. Para mim, uma amostra de que o tempo da contemplação e do vagar é uma ação de kairós na posição do sujeito no estar-no-mundo.
Pijao talvez tenha me parecido uma fenda na realidade, um lugar onde adoecer ocupa outro espaço, e viver represente outro tempo.
Ainda descubro efeitos desse encontro quando revisito Pijao em minhas lembranças. Ainda hoje e por muito, ainda desejo falar sobre ela.
Você que me lê já pensou em quantas farmácias vemos surgir no lugar de novos espaços públicos de convivência?!
Aliás, o que são espaços públicos de convivência?





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